Análise e Review do EP Não Feche o Cruzamento de Curva do 90

EP: Não Feche o Cruzamento

ARTISTA: Curva do 90

LANÇAMENTO: 17 de abril de 2026

GÊNERO: Rock

DURAÇÃO: 33MIN (6 faixas)

7.2

Não Feche o Cruzamento – Curva do 90

"“Não Feche o Cruzamento” pega o rock experimental brasileiro, mistura psicodelia, pós-punk e jazz-rock, e transforma tudo numa viagem urbana, caótica e cheia de identidade em construção."
Por Gabriel Silva -

"Não Feche o Cruzamento" já começa deixando claro que a Curva do 90 não quer ficar presa só ao rock tradicional. O EP mergulha em psicodelia, pós-punk, jazz-rock e sintetizadores que lembram muito os experimentos brasileiros dos anos 70, mas sem soar como uma simples homenagem ao passado. Existe uma vontade constante de testar caminhos diferentes, quase como se cada faixa abrisse uma estrada nova dentro do projeto. Em alguns momentos, o EP lembra bastante trabalhos como "Holoceno", do Papangu, principalmente nessa mistura entre rock expansivo e identidade brasileira, embora aqui tudo soe um pouco mais cru e direto.

Ao longo das seis músicas, a banda constrói uma atmosfera que alterna entre conforto e estranhamento. Mesmo quando o som fica mais pesado ou caótico, ainda existe uma sensação de viagem lenta, quase hipnótica. O problema é que, às vezes, o experimentalismo parece segurar demais as próprias ideias, fazendo algumas faixas se alongarem além do necessário. Ainda assim, dá pra sentir personalidade o tempo inteiro. A seguir, apresento minha análise faixa a faixa e a visão geral do "Não Feche o Cruzamento".

O grupo é claramente fascinado pelo rock, mas nesse "Não Feche o Cruzamento" a banda vai além disso. A introdução de elementos como psicodelia, punk, pós-punk e jazz-rock coloca o projeto numa atmosfera muito ligada aos anos 70, mas sem soar apenas nostálgica. Existe um espírito experimental constante aqui. Durante a faixa inicial, o experimentalismo vira praticamente a base do disco inteiro. "Expresso Mauritânia" talvez seja a música mais linear dentro dos gêneros do rock, mas ainda assim brinca bastante com sintetizadores e sons ambientes, trazendo uma profundidade que lembra composições brasileiras da década de 70.

"Vira Canoa" entra num pós-punk cheio de personalidade, como se a banda dissesse: “Olha, nosso "Não Feche o Cruzamento" é experimental sim. Não vai ser só rock como Papangu.” E isso funciona bastante, porque o grupo tenta se afastar do óbvio sem abandonar totalmente suas referências. Em alguns momentos o "Não Feche o Cruzamento" quase vira uma grande backtrack psicodélica, mas sem perder completamente a autenticidade. Mesmo enquanto constrói identidade própria, a banda também mergulha em inspirações mais eletro-rock em "Pipolândia", algo que particularmente me agrada bastante. Enquanto isso, "Não Feche o Cruzamento" mantém características mais familiares do gênero, mas adiciona pequenas camadas de psicodelismo e personalidade que ajudam a faixa a não soar automática.

O "Não Feche o Cruzamento", com suas seis músicas, parece carregar uma metáfora interessante: a tentativa de fugir justamente do “cruzamento”, como se a banda estivesse buscando uma identidade sonora própria em estradas diferentes ao mesmo tempo. Escutando faixas como "Estática" e "Reflexos de Vidros", fica difícil não lembrar trabalhos como "Holoceno", do Papangu, principalmente nessa mistura de estilos brasileiros com um rock mais expansivo e de longa duração. Dentro do cenário atual, o "Não Feche o Cruzamento" tem uma sonoridade muito boa. Quase como uma viagem por uma estrada longa e intensa, onde a banda vai se envolvendo cada vez mais nas próprias ideias. O problema é que, às vezes, o projeto parece hesitar em assumir totalmente o que quer ser. Existe um pensamento interessante ali — os garotos da Curva do 90 usando o rock como espaço para críticas culturais e sociais — mas o "Não Feche o Cruzamento" parece querer ir além disso sem deixar totalmente clara sua proposta. Talvez o excesso de faixas longas contribua para essa sensação. Algumas músicas passam dos cinco minutos criando atmosferas confortáveis e hipnóticas, mas também deixam um certo vazio no significado final. É como se a banda dissesse: “Descubra sozinho a proposta do disco.” Só que sem entregar camadas suficientes pra isso acontecer naturalmente. "Estática", com seus oito minutos, talvez seja o maior exemplo disso. A faixa transmite muito bem seus gêneros e tem uma pegada realmente sensacional, mas em alguns momentos surge aquela sensação inevitável de “já acabou?” — não porque a música seja ruim, mas porque sua duração fica perceptível demais.

Ainda assim, a banda consegue construir um "Não Feche o Cruzamento" que alterna entre picos altos e mergulhos mais profundos. Vai da colina até a estrada escura sem perder completamente o controle. E talvez o verdadeiro “cruzamento” do título seja justamente essa travada do "Não Feche o Cruzamento": um projeto sem freio entre encontrar identidade própria e se perder nas próprias possibilidades.

"Não Feche o Cruzamento" funciona justamente porque não parece desesperado em provar nada. A Curva do 90 soa como uma banda tentando encontrar identidade no meio do caos das próprias influências — e isso deixa o EP muito mais humano. Existe psicodelia, pós-punk, rock experimental e referências brasileiras espalhadas o tempo inteiro, mas sem aquela sensação artificial de “olha como somos diferentes”.

Claro, o projeto tropeça em alguns momentos. Certas músicas estendem atmosferas além do necessário, e o EP às vezes hesita entre ser algo totalmente abstrato ou mais direto. Mesmo assim, quando acerta, cria imagens muito fortes: uma estrada longa, sintetizadores perdidos no fundo da noite e essa sensação constante de cruzamento entre ideias, gêneros e sentimentos.

No fim, "Não Feche o Cruzamento" talvez seja exatamente isso: um EP sobre se perder enquanto tenta descobrir qual caminho seguir. E mesmo quando parece sem freio, a banda ainda consegue transformar essa confusão em personalidade.

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