Coisas Naturais – Marina Sena
""Coisas Naturais" consolida Marina Sena no pop contemporâneo desde sua estreia com "De Primeira" em 2021, mesmo quando a cantora une vários estilos em uma sonoridade tropical."Após o lançamento de De Primeira (2021), que revolucionou o pop orgânico brasileiro durante a pandemia, e seus beats eletrônicos house dance em Vício Inerente (2023), Marina retornou em 2025 com seu terceiro álbum de estúdio, denominado Coisas Naturais. Marina resolve brincar com o contemporâneo em uma experiência sensual tropical e sensorial de samba bossa nova, mesmo quando o experimental foge do coeso.
Representações de sensualidade foram atualizadas em Coisas Naturais. O álbum inicia com "Coisas Naturais", a faixa-título sensual, onde a cantora usa o pop tropical com ritmos contemporâneos. Apresentando uma MPB que evoca a atmosfera de um dia de verão, a cantora usa seus vocais quentes para fazer o ouvinte levitar por caminhos que Gal Costa e o mineiro Marku Ribas pavimentaram, ligando sua ancestralidade musical ao seu futuro pop. A Marina sabe como levar o contemporâneo pop através de tanta majestosa presença; não é à toa que foi indicada ao Grammy Latino de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa. Em "Numa Ilha", o primeiro single, que até recebeu um artigo no The New York Times, a cantora traz a suavidade que em "Por Supuesto" era sua definição de clássica composição apurada. Aqui a Marina explica: Em entrevista, a cantora diz "A vida é uma colagem de várias coisas e é natural que seja assim." A canção junta de forma precisa essa colagem, do pop ao reggae alternativo latino-americano. Ou em "Anjo", onde a cantora traz a bossa nova proposta por Luísa Sonza em "Chico" (Escândalo Íntimo, 2023) enquanto usa elementos de "Me Lamber", de Jão (Super, 2023), cheio de eletrobeats aflorados. Em "Sem Lei", com o R&B pop contemporâneo cheio de metáforas sobre uma vida sem lei, Marina está vivendo naturalmente. Como a cantora declarou em entrevista "É sobre o medo, sobre não ser pura." Cheia de liberdade, ela usa da melhor forma suas referências, como "Dano Sarrada" (Vício Inerente, 2023). A cantora brinca com o contemporâneo sensual, como em "Lua Cheia", com um sertanejo dos anos 80 calorento que se reduz em teclas viciantes, como se fosse um clássico do rock. Essa junção pode não funcionar para alguns, porém, com a produção de Janluska e os vocais sensoriais de Marina, torna-se uma combinação clássica. Até aqui, nessas faixas separadas, o disco funciona perfeitamente.
Em "Combo da Sorte", com um reggae alternativo tropical, ou em "Mágico", que usa o Neo-Soul onde o alternativo é cheio de baterias tortas; no melhor estilo de Tame Impala em Innerspeaker (2010) e Kali Uchis em Isolation (2018), o álbum é cheio de baladas em que o pop contemporâneo se intensifica, como se estivéssemos em baladas sensoriais dos anos 70. Coisas Naturais, nesses blocos de faixas separadas, funciona perfeitamente. Marina canaliza o natural do R&B contemporâneo clássico, lembrando Control (Janet Jackson, 1986), que envolve o gênero em estilos como se fosse um controle. Aqui o disco se transforma em uma viagem úmida cheia de contrastes vocais, de composições e de produção.
Coisas Naturais usa gêneros de forma complexa para um som tropical, sendo o erro do álbum a identidade mistificada sem tanta coesão sonora. Escutar o disco linearmente pode ser um desafio quando os sons tendem a se dispersar. A partir da terceira faixa, "Desmitificar" traz um eletropop salgado; mesmo quando busca inspirações mais Brat (Charli XCX, 2024) ou Her Mind (Urias, 2023), o disco fica carregado em um som pesado, sem justificativa para estar incluso. A cantora cria o melhor da composição, mesmo quando o psicodélico transforma o disco em uma paródia de si mesmo. "TOKITÔ", com as artistas Gaia e Nenny, tenta unir palavras dos idiomas no gênero definido como pop contemporâneo de forma confusamente interessante, resultando em uma faixa fraca, mesmo que seus refrões ("eu vou que 'to que; TOKITÔ") sejam, de certo modo, muito-humorados. "Nesse disco, eu não tentei parecer perfeita", disse a cantora, mesmo que isso defina o estilo do disco: imperfeito.
É de se propor a questão: foi um imperfeito positivo? "Sensei", um groove MPB com vocais perfeitos, é uma faixa que tenta nunca evoluir para definir o disco como algo extraordinário. Isso não é regra; FKA Twigs usa isso como estratégia em seu disco recente, EUSEXUA (2025), fazendo o ouvinte se perder no disco, enquanto em Coisas Naturais fica a dúvida: estou gostando? Na faixa "Doçura", com o Çantamarta, o público pode se surpreender com o vício do latino reggaeton clássico; ainda que exista um pouco de Bad Bunny (no disco Un Verano Sin Ti, 2022), a faixa não sintetiza de forma precisa sua proximidade com o disco; se não por Marina, por que será? A faixa sucessora, "Carnaval", tenta trazer o funk com muita sensualidade e, com menos de um minuto e meio, pode ganhar quem escuta; porém, para Coisas Naturais, fica largada, como se, ao invés de uma orquestra clássica, o disco fosse para um baile funk sem tanta justificativa. Marina pode agradar por suas composições.
Na última faixa, "Ouro de Tolo", indicada ao Grammy Latino de Melhor Canção em Língua Portuguesa, o álbum talvez se segure por causa de seus cinco minutos; porém, a canção tenta fazer o ouvinte viajar em vocais contemporâneos do R&B soul MPB e se torna cansativa, não pela duração, mas pela falta de algo que crie o questionamento: o álbum finaliza com maestria? Na verdade fica: termina como deveria, com o estilo de brilhante tentativa de fazer o pop melancólico que cumpre sua função: ser melancólico, ponto final. Coisas Naturais é impressionante e entrega Marina Sena em seu ápice do pop, mesmo quando falta estabilidade no gênero escolhido.