Análise e Review do álbum Mais Forte que a Dúvida de Melly

ARTISTA: Melly

ÁLBUM: Mais Forte que a Dúvida

LANÇAMENTO: 28 de maio de 2026

GÊNERO: R&B

DURAÇÃO: 41MIN (14 faixas)

7.9

Mais Forte que a Dúvida – Melly

"Em 'Mais Forte que a Dúvida', Melly entrega excelentes R&B e grooves dos anos 90, mesmo quando flerta com o pop.""
Por Gabriel Silva -

Após o aclamado disco de 2024, "Amaríssima", Melly retorna aos gêneros contemporâneos do soul que explodiram nos anos 60 a 80, sem sair da MPB dos anos 90, como no disco "Manual Prático para Festas, Bailes e Afins" de Ed Motta. Contudo, em sua reta final, o pop engole o disco mais rápido do que a própria cantora previa, sufocando a estrutura clássica do groove soul.

O R&B será o suporte para a obra do disco. "COMO DEVE SER (nem me estresso mais)" traz o ritmo que Destiny's Child usou no início da carreira nos anos 90. A cantora, com sua voz marcante e sem perder o balanço do R&B latino, cria o contorno que seu último álbum "Amaríssima" (2024) já adiantava. Nesse novo disco, ela compacta tudo em um rap soul conceitual, sustentado por uma composição animada da própria artista e do Luri Rio Branco. Faixas como "AMANHÃ" ou "ME LIVRE DE TODO MAL" fazem parecer que a declaração em si é a estética principal, como uma serenata ou uma viagem de avião para Nova York. R&B e Melly funcionam quase como duas coisas separadas; o álbum poderia ser preenchido apenas pela voz dela. Discos como "Bom Mesmo É Estar Debaixo D'Água" (2020), da fantástica Luedji Luna, têm essa mesma proposta: a voz se destaca tanto que parece única, e Melly consegue fluir com total coesão dentro do gênero.

O groove dos anos 90 e os sentimentos da vida são traços que a cantora usa em seu disco "Mais Forte que a Dúvida" como uma passagem de divindade. "MIRANTE" usa bem o gênero, onde a produção de Aliefe Souza traz a sensação de uma balada clássica dance dos anos 90. Já "ANA", com a belíssima participação de Liniker, cuja carreira é fortemente marcada pelo R&B desde o disco de estreia "Indigo Borboleta Anil" (2021), traz reflexões profundas sobre liberdade. O disco tem momentos de descanso: faixas como "TUDO QUE VOCÊ MERECE" ou "MEXER" ampliam a obra, mesmo quando o ritmo parece ficar travado e sem tantas individualidades. E embora o R&B se conecte muito bem com o hip-hop (como visto na própria participação de Liniker), faixas como "A GENTE COMBINA" carecem de uma sensualidade cheia de grooves, por mais que Melly tenha forte presença na composição. As faixas anteriores criam uma sensação de ansiedade. A artista diz "agora a intuição assume de vez a minha criatividade", o que funciona ainda melhor se lembrarmos que a narrativa de "Amaríssima" era sobre o desenvolvimento pessoal da artista. "Mais Forte que a Dúvida", por sua vez, usa o romance como narrativa principal. É onde brilham faixas como "BEM TE VI" e "Gosto MUCHO", que bebe da MPB clássica com inspirações dos anos 70 carioca; ali o uso do cavaquinho e um sarcasmo que flui igual à chuva em dia de carnaval, divertido e dançante. A cantora sabe quando relaxar. Mesmo quando o disco carece de mais R&B groove contemporâneo e entrega um Soul com menos substância, Melly surpreende nas 10 faixas apresentadas até aqui.

As participações são mera parte do disco; Melly trabalha com mais substância. Anitta, Léo Santana, Luedji Luna (na segunda faixa "AMANHÃ") e Liniker são os trabalhos compartilhados que a cantora traz no seu disco. Sem tanta sensualidade, surgem canções como "ELA GOSTA DE MENINA", que usa o pop moderno, ou "DEVAGAR SEM AGONIA", com o pagode R&B. Até aqui, o disco quebra os grooves e os dance beats, e se aproxima de um som que bem poderia ser o próximo disco de Ivete Sangalo ou da Boiadeira Ana Castela. A obra sai dos clássicos dos anos 80 e vem para os anos 2020 com a estética do pagode. O disco pode incomodar: quem queria um clássico pode se surpreender negativamente com a colocação de faixas que quebram a coesão do álbum e falham em entregar a originalidade prometida. Em "ÚLTIMO SINAL" e "A VOZ DO CORAÇÃO", ela finaliza o disco com um dance pop singular, como se fosse som de fim de novela das 19h. Melly surpreende com a voz, por mais que ainda pareça tentar se encontrar no início do disco.

"Mais Forte que a Dúvida" se sustenta pelo carisma de Melly e pela produção de Luri Rio Branco. Embora o início do álbum mergulhe de cabeça em um R&B contemporâneo potente e sofisticado, a obra acelera em direção ao pop mais rápido que a barreira do som, diluindo-se em participações superficiais e batidas comerciais no terço final. No fim das contas, o disco revela uma artista de voz gigante que ainda está testando seus limites, deixando no ar a dúvida se o seu futuro pertence ao groove de raiz ou às pistas de dança do pop.

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