Caymmi – Alice Caymmi
""Caymmi" é o novo lançamento de Alice Caymmi. Ao revisitar os clássicos de Dorival, a artista entrega um projeto que equilibra perfeitamente coesão e experimentalismo.""O que é que a baiana tem" é uma pergunta interessante. A cantora questiona enquanto usa o pop reggae, quase em um palco aberto, com uma voz pesada e um ritmo tão dançante quanto o de Bob Marley da Bahia. O disco inicia assim, tão simples e preciso, apenas questionando: o que é que a baiana tem? Durante as 12 faixas, Alice vai trazer a proposta do simples e do experimental. Alice disse que "Há muitos anos Dorival não é visto dessa maneira popular". Dorival Caymmi, que trouxe essas faixas para a MPB, serve como base para trazer o trabalho de seu avô à nova cena atual. Então, a pergunta "O que é que a baiana tem?" nada mais é do que: o que o pop atual tem que meu avô não pôde usufruir? Por isso, com o seu disco "Caymmi", Alice está reivindicando e modernizando a própria herança familiar, trazendo o sangue e a obra do avô direto para as pistas e para a nova geração, onde o reggae pop contemporâneo vai ser o grande foco do projeto lançado em abril.
Os ensinamentos do gênero pop, que desde o tempo de seu avô tinham personalidade, Alice traz atualizados com maestria. "Acalanto" consegue ser genialmente atmosférica, transformando a canção de ninar clássica de Dorival em um "Boi da cara preta" que se atualiza usando o hip-hop com a MPB, combinada com sua voz que traz uma sensação de ópera clássica. A cantora diz que "Sempre soube que em algum momento eu ia fazer isso." Pode ser que essa presença familiar forte tenha trazido complexidade e coesão sonora ao disco. "Modinha Para Gabriela", o primeiro single promocional com o samba reggae pop carioca, pode surpreender pela tropicalidade e faz jus quando a melódica e a poética sobre "por que sempre Gabriela?" transformam a faixa em: por que a Alice Caymmi decidiu fazer algo majestoso? Isso continua sendo trabalhado em "Canção da Partida" e "Canto de Obá", que mostram a sua voz religiosa maestral. Sendo todas as faixas de seu avô, onde Alice modifica as estruturas dentro do gênero pop atual, a cantora consegue unir esses sons como se fosse uma rodinha de música em um dia ensolarado. Sua voz potente e melódica transforma o disco em um clássico dos anos 60 sem fugir dos anos 2000, tudo isso enquanto usa metáforas com poucas palavras. Da mesma forma que seu avô desenhava a vida, a fé e o cotidiano da Bahia, ela traz esses temas para o Brasil inteiro sem perder a essência clássica do avô, tornando a experiência impecável.
O experimental entrou no disco. "Maracangalha" vem com o pop reggae sobre liberdade. "Dora" traz a MPB alternativa clássica sobre o encantar de uma mulher. "Dois de Fevereiro" traz um ritmo quente, fugindo da MPB tradicional e trazendo um eclético samba sobre dias de carnaval. Sabe o que essas músicas têm em comum? Alice explica: "É um grito de liberdade feminino muito bonito e também muito delicado e especial." Aqui, seu avô traz a beleza feminina, o corpo e o romance verdadeiro, e isso reflete na cantora; ela canta com felicidade as poesias, e os gêneros usados são todos alegres. Mesmo quando a música é retratada de forma mais melódica, ela traz vocais poderosos que entram na mente como um dia de folia. Esse desapego e foco na arte pura também vêm de berço: "A única coisa que ele quer é a música", diz a artista sobre o avô, o que gerou exemplos incríveis no disco, como "Adeus", composição de Dorival que vira uma música clássica da MPB contemporânea, sendo transformada pelos poderosos vocais à Gal Costa da Alice. Ou "Eu não tenho onde morar", o pop reggae que banha o disco "Caymmi" igual a águas cristalinas. "Há muitos anos Dorival não é visto dessa maneira popular", o que é um absurdo. Alice deixa claro que as composições de seu avô merecem retornar ao Brasil; por enquanto, ela cria uma obra coesa e narrativa, com amor e talento.
O final modesto do disco. "Morena do Mar" e "O Bem do Mar" podem parecer melancólicos, quase como um naufrágio, porém a cantora nos faz sentir em um show à beira da praia, com o incrível Dorival em 2026. Alice consegue surpreender, mesmo quando o disco leva longas durações que poderiam ser mais trabalhadas no experimental ou reforçar os gêneros de forma mais nítida. Afinal, em algumas canções, a linha entre a homenagem e a inovação fica sutil demais, deixando o ouvinte em dúvida se o disco é apenas uma regravação eletrônica das canções de Dorival ou uma obra-prima moderna recriada de outra perspectiva. No entanto, sua voz trabalha sozinha e isso transforma o disco em um pop com engenharias modernas do gênero; Alice transforma o clássico no agradável e espetacular. "Quis trazê-lo para esse lugar. Dorival é tão atemporal, tão eterno, tão simples e preciso". O que faz sentido, pois as faixas trazidas pela artista são maravilhosamente coesas, estruturadas e precisamente populares até hoje. "Caymmi" busca entrar na história, e, igual ao seu avô, Alice consegue fazer parte da história da MPB.