Análise e Review do álbum Tâmisa de Tietê

ARTISTA: Tietê

ÁLBUM: Tâmisa

LANÇAMENTO: 27 de fevereiro de 2026

GÊNERO: MPB

DURAÇÃO: 46 MIN (10 faixas)

8

Tâmisa – Tietê

"“Tâmisa” pega a MPB dos anos oitenta, joga no jazz e no rock, e transforma tudo em algo urbano, íntimo e surpreendentemente vivo."
Por Gabriel Silva -

"Tâmisa", segundo álbum da banda Tietê, foi gravado em apenas três dias no Abbey Road Studios, em Londres, e mergulha direto em simbologias brasileiras misturadas com jazz e MPB. Durante os 46 minutos do disco, a banda soa quase improvisando o tempo inteiro, mas sem nunca perder a direção. Em alguns momentos, o álbum lembra bastante "Clara Crocodilo", de 1980, do Arrigo Barnabé, principalmente nessa mistura entre experimentação e elementos mais ancestrais. E também lembra "MetaL MetaL", de 2012, com esse afro-jazz cheio de metáforas urbanas e tensão social, embora "Tâmisa" siga um caminho menos caótico e mais acessível. Durante essas dez faixas, o disco até repete algumas ideias sonoras, e talvez a banda use isso como parte da própria identidade do álbum. Mesmo assim, em certos momentos, essa repetição deixa o clima um pouco cansativo, como se algumas músicas girassem em torno da mesma atmosfera por tempo demais.

Dá pra sentir que a banda se inspira muito nesses trabalhos, mas sem parecer um copiar e colar. Tudo aqui soa mais instigante, quase como um caminho linear que vai crescendo aos poucos. Até quando o disco cresce e fica mais pesado, ainda existe uma sensação estranha de calma, como atravessar um rio tranquilo sabendo que ele pode transbordar a qualquer momento. E isso funciona por causa das letras, que falam bastante sobre vulnerabilidade humana e indignação social de forma metafórica, mas também pelo jeito que a banda mistura rock, jazz e MPB sem tentar soar excessivamente agressiva. Diferente das referências mais complexas, Tietê prefere construir tensão aos poucos, de um jeito mais emocional, mesmo que às vezes falte um lado mais feroz e explosivo. Outro detalhe interessante é que metade do disco foi gravada ao vivo, algo que combina bastante com a proposta mais espontânea do álbum e ajuda a explicar essa sensação constante de improviso e conexão entre os músicos. A seguir, apresento minha análise detalhada faixa a faixa e a visão geral do álbum.

O disco começa com "Enquanto Você", já abrindo exatamente o universo que a banda quer construir: uma mistura de rock, jazz e MPB que vai se espalhando aos poucos. A faixa tem essa energia meio de rua, meio de celebração, como se fosse um carnaval urbano que vai crescendo sem pressa. A produção de Rubi, Pedro Carboni e Dan ajuda muito nisso, trazendo tambores, saxofones e baterias que deixam tudo bem organizado. Em alguns momentos, dá até pra lembrar a atmosfera espiritual do Moacir Santos, principalmente em sua música "Nanã", que parece uma referência indireta aqui — mas sem perder a identidade própria da faixa. Dá pra sentir que a banda realmente se divertiu nesse processo, algo que eles mesmos comentam quando dizem: "Conseguimos levantar todas as faixas com muita alegria" disseram para a imprensa. E isso aparece no som, não como algo ingênuo, mas como uma curiosidade constante de experimentar ideias. Essa abertura também mostra como a banda trabalha bem com contraste: em faixas como "Menino e a Cobra" e "Geologia", as letras vêm cheias de metáforas sociais enquanto os arranjos seguem um jazz mais tranquilo, quase contemplativo. Em participação como a de Lala Rennó na segunda faixa, isso fica ainda mais evidente: a busca parece ser por um som acessível, mas com letras que exigem atenção. Às vezes isso funciona muito bem, outras vezes a faixa se estende um pouco além do necessário, como se a própria sensação quisesse ficar mais tempo do que deveria. No geral, essa abertura do disco já deixa claro o tom: algo entre o clássico e o ousado, entre cantiga e poema, sempre com essa sensação de chuva constante — como se cada som fosse um pingo batendo devagar, às vezes bonito, às vezes prolongado demais, poderia ser reduzido, o significado e o clima sonoro que estão fazendo continuaria coerente sem a necessidade de tanta repetição.

O disco não tenta ser grandioso — e nem precisa. A ideia de amigos se reunindo em Londres, depois de um convite da própria gravadora para gravar um álbum no Abbey Road Studios, poderia facilmente subir à cabeça de qualquer banda. Mas Tietê segue pelo caminho contrário. “A nossa pulsação tendeu a bater junto [...] a de todos”, comentou o grupo sobre o processo de gravação. E isso realmente aparece no disco. Existe uma conexão muito natural entre os integrantes, principalmente em "Maçã Podre", onde os vocais se misturam em uma faixa puxada pro reggae, criando um dos momentos mais tranquilos e acolhedores do álbum. Dá até pra sentir um certo nervosismo positivo no projeto inteiro: o peso do convite, a pressão do estúdio lendário e toda a loucura em volta da gravação. Mesmo assim, a banda transforma isso em algo orgânico, cheio de metáforas e pequenas ideias que fazem o disco ganhar personalidade própria. Mais adiante, "EU Vi o Fim" abraça o livre de vez, usando referências sonoras dos anos 70 para criar uma música quase caótica, mas ainda divertida, cheia de comentários sociais espalhados pela letra. Em momentos assim, Tietê lembra trabalhos como "Encarnado" (2014), de Juçara Marçal, principalmente nessa vontade de reinventar sons brasileiros sem parecer calculado demais.

E talvez esse seja o maior mérito do álbum: ele não parece obcecado em criar “a obra definitiva”. O grupo só quer existir ao lado de discos clássicos da MPB, bebendo dessas influências sem transformar tudo em homenagem vazia. Faixas como "Três Cartas à Celephais" e "Deixar o Medo" ajudam bastante nessa construção mais coesa do disco, principalmente pelas inspirações em nomes como Chico Buarque e Seu Jorge, artistas que conseguem unir comentário social e acessibilidade musical. Mesmo quando as músicas não alcançam algo realmente brilhante ou inovador, ainda existe personalidade suficiente pra banda não soar apenas como repetição. Claro, "Tâmisa" também tropeça. "Biscoito de Sorte", última faixa do álbum, parece perdida dentro da própria proposta. O experimentalismo toma espaço demais e a sensação final acaba sendo menos impactante do que poderia. Em alguns momentos, o disco prefere alongar atmosferas ao invés de deixar o lirismo respirar. Durante as dez faixas, "Tâmisa" funciona como uma roda-gigante: às vezes no topo, às vezes mais embaixo. Mas isso nunca soa como falta de direção. A pulsação da banda funciona, e talvez três dias tenham sido exatamente o tempo necessário para tudo aqui soar tão vivo. Mesmo com altos e baixos, existe disposição, criatividade e identidade suficiente para fazer desse álbum um trabalho profundamente ligado à tradição da MPB, mas sem parecer preso ao passado.

"Tâmisa" não parece um disco feito pensando em prêmio ou reconhecimento mundial. Ele soa mais simples que isso — e talvez esse seja justamente o seu charme. A banda pega elementos clássicos da MPB e leva tudo para o Abbey Road Studios sem transformar a experiência em algo pretensioso. No fim, o álbum acaba sendo casual, gostoso de ouvir e até admirável na forma como mistura jazz, rock, reggae e participações que realmente acrescentam ao projeto. Tietê soa menos como “uma banda tentando impressionar” e mais como amigos criando música juntos. Dá pra imaginar eles sentados em roda, rindo, testando ideias e entendendo as qualidades uns dos outros enquanto o disco ganha forma. E talvez seja isso que faça "Tâmisa" funcionar tão bem: ele não parece calculado. O álbum carrega inspirações, ancestralidade e críticas sociais, mas tudo isso vem de um lugar muito humano. Com quase 50 minutos, o disco obviamente tem seus altos e baixos. Faixas como "Enquanto Você" e a participação de Lara estão entre os momentos mais fortes do álbum, principalmente pela forma como conseguem equilibrar emoção e musicalidade. Porém, algumas repetições acabam cansando ao longo da experiência, e "Biscoito de Sorte", com seus 11 minutos, parece perder um pouco o controle da própria proposta.

Ainda assim, a produção continua sendo um dos maiores acertos do disco. Os arranjos lembram melodias clássicas dos anos 70 e ajudam a construir essa atmosfera meio nostálgica e urbana ao mesmo tempo. O problema é que, em certos momentos, o imprevisível parece se alongar mais do que deveria. Não por falta de talento ou ideia, mas porque o álbum parece hesitar entre ser algo totalmente simbólico ou algo mais direto. Mesmo assim, dá pra sentir que existia felicidade ali. A conexão entre os integrantes, essa “pulsação” que a banda comenta, realmente aparece durante o disco inteiro. Talvez um pouco mais de equilíbrio deixasse o projeto ainda mais forte e polido, mas isso não apaga o fato de que "Tâmisa" continua sendo uma obra cheia de personalidade. E talvez a frase “Tâmisa é Londres” não represente totalmente o álbum. Porque, no fim, o disco soa muito mais como Brasil: clássico, caótico, cheio de desafios — mas ainda assim bonito.

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