Solar – Mombojó
"Em "Solar", Mombojó nos oferece um disco que vibra intensamente, tal qual o calor da capital pernambucana: uma jornada cheia de energia e introspecção, onde a claridade expõe a formosura e os detalhes da existência."O Mombojó, banda pernambucana que surgiu no cenário musical em 2001, sempre se destacou por sua proposta minimalista e por criar álbuns que seguem uma arquitetura própria e regular. O seu novo álbum Solar chega após o lançamento de Carne de Caju (2024) e do debut Nadadenovo (2004). Em mais de 20 anos de carreira, a banda parece ter consolidado uma identidade sonora única. Como eu nunca ouvi nada deles antes, minha expectativa é que Solar traga algo surpreendente, que me coloque em um clima psicodélico e afirme que eu estou perdendo mais uma banda brasileira com personalidade.
A capa de Solar reflete uma proposta mais abstrata e cheia de elementos que remetam à cultura recifense. As cores utilizadas vermelhas e acinzentadas evocam uma energia de perda e reconquista da cidade. A impressão que tenho é de que a banda quer mostrar o lado mais caloroso e descontraído de Recife, com suas 8 músicas e participações especiais que, pelo que pude entender, devem ser a melhor forma de incorporar ainda mais a rica identidade cultural da cidade. Minha expectativa é que o álbum faça essa energia, algo que mostre e torne a beleza cotidiana da região em uma reflexão. Espero que Solar seja viagem leve e cheia de metáforas, ou talvez seja algo mais abstrato, com uma visão mais detalhada do território que eles representam.
Logo de cara, o álbum nos entrega "Quero Amanhecer", feita em colaboração com Le Commandant Couche-Tôt, que transborda uma energia claramente. A faixa tenta explorar temas como a nostalgia e a trajetória da vida, a música assumi uma metodologia mais minimalista da banda, que arrisca em um som eletropop com nuances de synthpop, criando um estilo que para mim consegue ser satisfatório, a canção se assemelha com Fumaça, música da banda Boogarins, que utiliza essa nostalgia para enriquecer a música. Assim, a enriquece e aprofundar o álbum um estilo natural e atmosferico. Assim como visto em "Sob o Vento Forte", aondeo grupo se aventura pelo rock psicodélico mesclado a elementos da música brasileira. Com a participação especial de Laetitia Sadier que traz instropectividade a faixa, faz com que de forma sarcástica e metafórica, me colocou em outra dimensão abordando em sua composição o ego humano, política e poder, unindo instrumentos nordestinos à psicodelia dos anos 2000 de um jeito pontual, sendo para mim a melhor faixa do disco, pois com a junção sensacional da banda com Sadier, faz uma faixa tão admiradora, que entrega carisma e conceitos, que eu não imaginaria que Solar teria tal capacidade, e teve, eu tem o meu respeito.
Pode se Perceber, que a banda, mantém ainda que de forma atualizada, o mesmo estilo que provavelmente tinham no inicio della carreira deles. O que para mim e bom, já que eles trazem de forma pessoal esse estilo, enquanto modificam no cenário atual músical brasileiro, assim podendo brincar com genêros e ideias.
A valorização da identidade regional se intensifica em um samba psicodélico na faixa "Mergulhando no Mar", que descreve um fim de semana em Pernambuco. Aqui, o "mergulho" funciona como uma metáfora para o calor de Recife, suas prias, sues botecos, seus corpos humanos, onde sanfonas e outros instrumentos enriquecem a sonoridade que mistura o synthpop ao modo de falar nordestino. Essas estilos juntos se coincidem bem e a banda busca essa fusão. Essa busca por raízes e união continua em "Cima da Areia", um samba indie que fala sobre perseverança e os desafios da vida, aqui a banda parte para outro principio a forma de vida cotidiana deles, nas faixas eles escrevem como não apenas um desafio, mais também como transformção, como já vimos em músicas como Zero, música de Liniker, que mostra a pespectiva entre imaginar e está no lugar.
O disco apresenta um momento diferente em "Abaixo a Realidade". Em parceria com Letrux, a banda escolhe uma balada dos anos 80 focada na decepção amorosa. Mesmo com uma execução impecável tenho que admitir, a atmosfera melancólica destoa do restante das faixas minimalistas, muito deslocada em relação à energia das faixas anteriores, para mim uma faixa sem importância nenhuma. Felizmente a sonoridade original é retomada em "É o Poder da Dança", um samba que evoca estilos antigos para superar algo ou álguem. O retorno ao minimalismo psicodélico e o uso de toques eletrônicos é sim ótimo, as batidas são boas ao meu ver, eles acertam nisso, o problema vem da repetição excessiva que poderia ser cortada, uma música linda, que a deixa à toa pelos versos que não têm fim.
Na parte final, o álbum traz "Em Plena Sexta-Feira" (com Lucas Afonso), que faz uma crítica irônica ao trabalho exaustivo. Apesar da sonoridade envolvente, a faixa acaba se estendendo demais, não aproveitando todo o seu potencial, e Lucas Afonso se perde aqui. O encerramento fica por conta de "Canudo de Luz", uma viagem surrealista de cinco minutos pela natureza. Mesmo com a narrativa sobre a transformação dos corpos e a metáfora do sol e mar sendo incríveis, a faixa carece de um toque final como conclusão, soando chata, pois tanta ambição que transbordar sentimento, eu ouvi e já queria que acabasse.
Solar é um disco caprichado que combina psicodelia, samba e toques eletrônicos de um jeito esperto. A banda consegue apresentar uma sonoridade que soa leve e, ao mesmo tempo, quente, com laços fortes com Recife e a força do sol. Mesmo que algumas músicas claramente são melhores do que outras, o álbum todo passa a impressão de que a vida e a música do Mombojó ganham energia do calor e da luz solar.
Ainda assim, certas decisões de estilo e a falta de algo a mais em algumas faixas fazem Solar perder um pouco a personalidade no fim do álbum, que mudam de canções leves e inteligentes, para complexas e tanto faz. Se a banda tivesse mantido uma sonoridade mais uniforme em todo o disco, talvez ele tivesse causado um impacto ainda maior, não pelo ficar na mesma, isso não é ruim, como vimos que isso não deixou o disco tão salgado no final, porém deixou inconsistente.
Solar é uma balada musical quente e contagiante, com algumas músicas incríveis, mas também algumas escolhas que não se encaixam muito bem. De todo modo, é um álbum que vale sua escuta, pois a genialidade de mistura da música nordestina com a psicodelia atual, faz Solar ser brilhante.