KUCZYNSKI – Vivian Kuczynski
""KUCZYNSKI" transforma o eletropop em uma trajetória de vida descontraída, demonstrando isso com batidas repetitivas do gênero synthpop. Porém, apenas com seus sintetizadores, Vivian Kuczynski consegue usufruir das batidas nesse disco repleto de caos sonoro."Durante o álbum, a cantora propõe buscar no gênero balada pop inspirações que talvez víssemos em outros trabalhos discográficos de artistas como a banda NX Zero — que usa o synthpop como uma balada noturna contemporânea. Entretanto, a cantora traz uma abordagem quase comparada a uma balada em plena luz do dia, sem arrependimentos de curtir o ambiente. "Esse lançamento marca o início da minha identidade como artista [...] minha visão autoral começou a ganhar forma", disse Vivian para o release.
"KUCZYNSKI" é seu EP de estreia assinado apenas com o sobrenome, e o seu segundo trabalho em apenas dois anos, após o álbum "Copas & Estopim" em 2024. Com seis músicas e apenas dezoito minutos de duração, a ambientação envolvida por Vivian nesse disco é semelhante a alguém indo para o trabalho, porém parando no caminho após ver uma festinha; Vivian é a trabalhadora. Especialmente quando a cantora se envolve na criação do projeto, reflete suas vivências no cotidiano e na música. Valeu a pena esse projeto de Vivian? Sem medo de inovar no mercado musical brasileiro? A seguir, apresento minha análise detalhada faixa a faixa e a visão geral do álbum.
Em "Manual", disco da banda Boogarins de 2015, tentava-se explorar o synthpop de forma minimalista, porém sem tantas camadas; aqui em "KUCZYNSKI", acontece diferente. É como se, por exemplo, estivéssemos no fim do mundo às duas da tarde. Na faixa de abertura, "WE ARE GONNA LAND IN HOUSTON", a grandeza dos sons faz com que o ouvinte identifique o caos em um punk de forma excelente. Vivian consegue controlar nossas emoções profundamente, sabendo equilibrar o performático com o estrondoso extravagante.
É provável que a cantora tenha imposto seu lado "baladeira" durante a composição. Imagino a cena da artista descobrindo as melhores formas de surpreender sem sair do gênero pop eletrônico enquanto dá risadas. Mesmo com essa visão, ela está centrada em fazer o melhor disco, como visto em "HAPPILY EVER AFTER" ou "MUSIC 4 A STRIP CLUB", onde coloca a canção para ser tocada em uma multidão enquanto reclama que está atrasada para algo importante; mesmo assim, ela não quer parar de curtir. É como se estivéssemos dançando a caminho de um encontro e entrássemos por engano em uma boate. Ela conduz com suas melodias um pós-punk, deixando notório que o álbum nada tem de minimalista, apresentando muitas camadas. A trajetória até aqui é instigante: a cantora não tenta provocar, ela apenas dá a entender que o disco é uma festa e que todos estão convidados e bem servidos.
É de admirar mudanças em discos que experimentam o eletropop como base. Vivian observa que a repetição constante é um recurso barato para transformar discos em projetos experimentais de sons repetitivos. Por isso, em "STEALING IS A BAD THING", a cantora usa Vocoder, que até então não era o estilo do disco (que se apresentava como uma balada tocada por acaso). Entretanto, o trabalho evolui de um eletropunk para um pop dance eletrônico. A artista não usa esse recurso apenas para aprofundar o álbum, mas como uma forma de sair da "baladinha da tarde caótica" para se tornar o fim de semana inteiro caótico. A cantora sai da festa atrasada e vai para outra, esquecendo de ir ao trabalho; ela quer curtir o dia. Na faixa "DOLLARS", ela retorna para o synthpop provocativo sem tanto avanço. Vivian se tranquiliza nessa canção, sem propor tanto. É algo visto em outras canções do gênero, como "Gasolina" do cantor Teto Preto, que sem perceber não consegue avançar e se perde na repetição cansativa. A faixa se torna um tipo de "espera de fila": você escuta o som, mas precisa esperar antes de entrar na festinha. Atua como uma barreira que, nesse fim de disco, deveria ser extinta.
Com isso, avançamos para a última faixa, "GOD MADE US THIS WAY", canção que tem inspirações em artistas como Alice Caymmi, que usam o Eletro Soul como uma despedida. Elas querem continuar curtindo, porém precisam ir embora. Vivian volta para casa depois de festejar a tarde inteira. Nem tudo precisa ser bom ou ruim; mesmo as faixas menos marcantes de "KUCZYNSKI" sabem valorizar uma boa frase irônica: "meu chefe perdeu a maior festa da minha vida, porém serei demitida". Finalizar um álbum de forma não satisfatória talvez fosse exatamente o que a cantora quis. Uma jornada de início, meio e fim bastante complexa não é necessária no contexto do disco. Aqui o álbum atua como um trilho, uma vida de dois pontos: nós estamos no início e Vivian está no fim, avisando de forma cautelosa que o gênero eletropop e suas ações não precisam ser boas todas as vezes, apenas suficientes para dançarmos.
"KUCZYNSKI" tem a proposta de fazer da vida de Vivian uma balada contínua. O tom caótico era algo não esperado por mim desde quando procurei saber mais a respeito. Balada eletropop é um gênero que necessita de observação constante, pois pode se tornar uma junção estranha de sonoridades sem sentido. O disco é uma ideia promissora e, igual a um vinil, pode repetir quando quiser que não vai cansar.
Vivian explica: "marca o início da minha identidade". Ela consegue ser prestativa e ter presença em apenas seis faixas. Este EP mostra que a cantora abraça o gênero como qualquer outro artista, porém, com disposição, ela leva a música a direções inesperadas. Portanto, fico com bastante vontade de entender quais serão os próximos trabalhos de Vivian nesse gênero específico e a forma como ela irá preparar seu próximo projeto. Se ela usar o contexto de vida sem limites visto aqui, podemos esperar mais um grande sucesso.