IV – White Canyon and The 5th Dimension
"Em "IV", White Canyon & The 5th Dimension tecem uma jornada alucinante que cruza raízes antigas e laços humanos, com passagens hipnóticas e em loop que guiam o ouvinte num cerimonial acústico entre o pessoal e o transcendental."White Canyon & The 5th Dimension, uma banda brasileira que tem o costume de compor em inglês, lança em 2026 mais um álbum, intitulado "IV". Pelo que pesquisei, a dupla irá abordar a ancestralidade por meio de camadas geográficas, partindo de energias místicas — como as de São Thomé — narradas por uma sonoridade alternativa.
A capa é bela, trazendo uma figura central que, ao meu ver, parece organizar essa jornada espiritual proposta pela banda. O nome do álbum pode ter diversos significados, mas, na minha visão, pode representar uma metáfora para as relações. Composta por oito canções, vamos nos aventurar por esta obra. Minha crítica segue abaixo. aqui
A faixa de abertura do disco, "Silver Womb", explora ao longo de seus seis minutos um gênero neopsicodélico. A canção foca de forma minimalista nos vocais da dupla e em uma atmosfera que exala mistério. Eles são excelentes em causar uma sensação de profundidade; eu me senti consumido pelos vocais e sons que funcionam de forma fantástica, e aqui a repetição não se torna cansativa. Na segunda faixa, "Gravestone Lips", a obra tende a repetir os mesmos instrumentais, criando uma continuidade coesiva. A sonoridade se inspira no alternativo com arranjos do rock alternativo, gerando um "desconforto" interessante. A dupla é espetacular em unir as vozes para criar uma atmosfera viciante. A música consegue ser tão boa quanto a primeira, embora, ao final, o estilo psicodélico se desgaste um pouco. A faixa se perde por um momento e o gênero proposto fica preso em um ciclo sem tantas camadas.
"Where the Dreamers Go", a terceira canção, segue a mesma linha e descreve sentimentos de desilusão e perda de interesse nas relações. Ela se destaca pela suavidade dos artistas, contrastando com o rock mais pesado. É uma boa faixa, que me agrada pela duração precisa: o tempo passa e você quase não percebe. Já em "Flesh and Bones", que possui camadas semelhantes às anteriores, a narrativa segue uma metáfora sobre "carne e osso", explorando significados de espiritualidade e jornada. Ao meu ver, a faixa acerta tanto quanto as outras, com uma atmosfera profunda que lembra artistas como The Black Angels, pelo modo como equilibram a melancolia sonora. As duas faixas reforçam a proposta de que o álbum "IV" não é apenas melancólico e quase cinematográfico, mas também uma demonstração da identidade experimental da banda. Até aqui, porém, o álbum peca pela repetição excessiva. Muitas músicas compartilham o mesmo estilo, timbre e vozes, o que me incomoda por não sentir o trabalho avançar. O gênero proposto é naturalmente repetitivo, mas sinto que falta variação instrumental. De todas, a abertura ainda é a que mais me surpreende; as demais seguem a mesma fórmula, onde apenas o significado das letras muda.
Em "Alumia Part I", somos introduzidos a um interlúdio narrado que prepara o terreno para "Alumia Part II". Esta é a primeira faixa em português, com claras referências a sonoridades como a MPB experimental dentro do psicodélico e do rock alternativo. A faixa é encantadora e me surpreendeu pela implementação de instrumentos mais tradicionais, como saxofones e chocalhos. O significado é romântico, focando na individualidade do casal. É uma faixa poderosa que resgatou; desde a segunda música; a identidade do álbum e seu peso espiritual sobre ancestralidade. Não percebo nela pontos que me deixaram desconfortável ou instigado negativamente; pelo contrário, ela trouxe novamente o real sentido de "IV". A dupla quer mostrar que a relação não é baseada apenas no amor, mas também em uma conexão ancestral e espiritual.
Ainda focando no sentido espiritual, voltamos para o inglês em "River Song". Ela pega o estilo da faixa anterior, porém modificando um pouco sua estrutura. A canção de cinco minutos descreve o rio como uma metáfora para passagens, assim como em uma relação: às vezes para, corre levemente, percorre caminhos ou é forte demais. O refrão, com a união das vozes deles — que durante o álbum inteiro é tranquila e atmosférica —, dá um ar de amor e de uma relação desaguando em uma cachoeira. Mesmo com um estilo sem muitas mudanças, repetindo o gênero alternativo de forma satisfatória, a música mantém a coesão principal. Em contrapartida, "Wicked Eyes", a última música de "IV", narra de forma obscura uma figura que os segue. A faixa não foge à regra; não há muito o que destacar. Talvez eu tenha me precipitado ao esperar que o final fosse grandioso. Embora o gênero sonoro ainda seja positivo, o significado da música aqui no final quebra um pouco a imersão; se fosse a primeira faixa, faria mais sentido. Sua estrutura é semelhante às demais: não decepciona, mas também não é algo de outro mundo. Portanto, a dupla ainda é genial, mesmo com seus deslizes nas faixas que quebram a imersão de "IV".
Realmente, "IV" é artisticamente surpreendente. White Canyon & The 5th Dimension conseguem explorar maravilhosamente, dentro do gênero alternativo psicodélico, uma estrutura de revolução criativa com profundidade temática sobre relações e ancestralidade. Eles convidam o ouvinte a identificar a organização das faixas com base em uma coesão narrativa que atravessa camadas de amor e melancolia, passando pela reflexão entre o interpessoal e o espiritual. A banda claramente domina o assunto de forma perspicaz; possuem um estilo sonoro único, que vai das guitarras ao saxofone, unindo o rock alternativo à MPB contemporânea por meio de vozes que ecoam e harmonizam muito bem. O conceito de energia mística que a banda explora — utilizando símbolos como São Thomé para evocar essa reflexão; é profundo e admirável, mesmo que eu não tenha focado tanto nisso nesta análise.
Talvez o álbum me incomode um pouco na repetição. Muitas vezes, o psicodélico alternativo tende a seguir esse sentido — a repetição gera algo sobrenatural, como um portal. E mesmo que em alguns momentos isso funcione, o som é tão denso que chega a ser cansativo. Por pouco a obra não perde sua proposta geográfica e ancestral, mas a dupla sabe o momento de parar. Em certos pontos, falta uma evolução sonora e algumas faixas mantêm o mesmo timbre musical; embora a coesão e a sequência ininterrupta sejam a proposta, o disco se perde em alguns momentos, criando um ciclo onde ficamos esperando o que vai acontecer em seguida.
"IV" é um livro de história contemporâneo que explica relações abordando temas ritualísticos e isolamento reflexivo, algo que o White Canyon & The 5th Dimension domina muito bem. Mesmo que algumas folhas estejam rasgadas, ainda é possível identificar a história e o seu real significado. aqui