Interdimensional – Guilherme Arantes
"Em "Interdimensional", Guilherme Arantes guia quem ouve por uma jornada sensível e pessoal, onde o piano marcante e o timbre único se unem em texturas de MPB apaixonada, misturando o individual e o coletivo numa vivência que exalta o afeto através dos tempos."Gravado na Espanha, Guilherme Arantes retorna em 2026 com seu mais novo disco, "Interdimensional", lançado em janeiro deste ano. O álbum ostenta uma proposta clássica: versar sobre as vivências do cantor ao som dos pianos eruditos e do estilo romântico marcante dos anos oitenta. Este trabalho sucede seu último lançamento de 2021, o álbum "A Desordem dos Templários", que se consolidou como um marco na carreira do artista por seu sentimentalismo e viés progressivo. Sendo assim, sinto-me genuinamente animado para este review.
A obra apresenta uma capa bela, expondo o rosto do artista sob o título do álbum em um estilo psicodélico, com claras inspirações em discos oitentistas. É uma proposta experimental, da qual podem emanar significados interessantes. Vamos, portanto, mergulhar e curtir os sons dos pianos clássicos do mestre. Minha crítica segue detalhada abaixo:
Introduzindo o álbum, Guilherme Arantes traz "A Vida Vale a Pena", brincando com o MPB contemporâneo e falando de romance e da jornada do amor. Sua voz é surpreendente; ele consegue uma entrega profunda e suave, ambas conectadas e encantadoras. É emocionante, e a canção não perde um minuto sequer. Na segunda faixa, "No Mel dos Seus Olhos", é perceptível o MPB com um leve samba-bossa nova, que envolve o álbum na influência que Guilherme sempre teve no piano-bar. A música mantém a continuidade levemente experimental da anterior, abordando metáforas inteligentes e trazendo um sentido de refúgio em alguém que ele ama. Aqui, ele apresenta uma performance vocal decente — talvez a composição funcione melhor ao vivo, com a naturalidade de piano e voz; ainda assim, é linda essa entrega romântica. A terceira canção, "Minúcias", traz uma emocionante balada pop, em que o cantor expõe seu relacionamento amoroso e seu amadurecimento. O artista demonstra isso em uma execução comovente; é impecável, e seu sentimentalismo se expressa apenas no tom vocal. Uma obra que funciona somente com a voz, em um MPB de aplausos. O amor resiste em suas palavras, em um refrão tocante. Para mim, "Interdimensional" é um álbum que foge do MPB genérico, daqueles mesmos instrumentos como violão, cavaquinho e pianos convencionais. Ele vai além e cria um disco talentoso e com personalidade.
Dando continuidade, a quarta faixa, "Libido da Alma", entrega uma canção sensual; aqui, o cantor surge como um jovem descobrindo a conexão maior da libido na relação. É uma música divertida, que se destaca na sonoridade atual brasileira; ele volta aos anos oitenta com essa composição, lembrando artistas como Lulu Santos, que domina um pop inteligente em ambas as épocas. A composição é sonoramente viciante com essa voz. Seguimos com "Intergaláctica Missão (Balada Interdimensional)", onde ocorre uma leve implementação do pop progressivo. Talvez, no álbum, esse gênero não tenha tanta coesão, embora o significado guarde uma continuidade belíssima, como nas demais. Porém, os sintetizadores na voz e no fundo são pesados; mesmo com o artista dando seu máximo, a obra ainda tem momentos imperfeitos. Na sexta canção, "Enredo de Romances", ele mantém o pop MPB que consolidou sua carreira. O cantor explora várias ideias de amor com sensibilidade lírica e aposta no pop autoral em uma faixa que, ao meu ver, funciona tanto quanto a anterior. O refrão flui bem, e a sonoridade traz essa atmosfera romântica que, para mim, é o verdadeiro sentido do álbum.
Em "O Prazer de Viver Para Mim é Você", Guilherme traz um sentimento lírico e dramático em relação ao amor. Ainda no contexto do álbum, a composição se mostra coerente com as sonoridades do MPB, sendo uma das mais sentimentais do disco. Assim como em outras canções, o artista é preciso na construção do significado do projeto. Na canção seguinte, "Lua de Prata", o artista retrata memórias reflexivas e românticas. O artista questiona o olhar do outro, perscrutando se ele é sincero. A faixa se destaca na união das vozes que o intérprete realiza; parece uma parceria, pois a harmonia é surpreendente e não aparenta ser a mesma pessoa. É uma canção bela, em que a MPB se mostra impressionante, levando ao êxtase pela combinação de voz e sons, onde a harmonia reina soberana. Na novinha canção, "Sob o Sol", o artista constrói a ideia de que a Terra é uma prisão e que nossa dificuldade reside na compreensão de tudo. Esse lado do disco, mais voltado ao pop progressivo, não é tão interessante, já que o uso dos sintetizadores se torna excessivamente experimental. As faixas de MPB romântica são os melhores momentos do álbum; não creio que esse lado pop condiga plenamente com a obra.
Em "Interdimensional", o artista se dispõe a mostrar camadas mais profundas, criando uma imersão dentro do MPB; ele faz isso com uma performance sólida, que funciona pontualmente. Em "O Espelho", o cantor tenta se aprofundar em um pop sem muito vínculo com o disco; semelhante à anterior, soa estranho, pois o significado também se distancia. É uma faixa experimental até demais. Dando seguimento, "Puro Sangue (Libelo do Perdão)" é a mais longa do álbum, em que o cantor retorna às origens do disco ao abordar o perdão. A sonoridade traz um piano que guia a voz, criando profundidade, ainda que com mudanças em relação às outras faixas. Não é a melhor composição até aqui, mas esse retorno é válido; ainda assim, é um bom momento do trabalho.
Em "Toda Felicidade", o artista trabalha metáforas de nuvens como eixo do relacionamento. É uma faixa curta que traz um ótimo R&B junto a uma bossa nova artesanal; uma obra única, tanto na profundidade sentimental quanto na fusão de gêneros que o cantor realiza com precisão. Na décima terceira faixa, "50 Anos-Luz", entra um rock alternativo dentro do MPB. Diferente de tudo, a canção é um instrumental excelente, em que apenas a guitarra constrói a sensação de distância, usando a metáfora dos anos-luz como passagem temporal. É profunda, emocionante e consegue transmitir sentimentos de forma melódica — uma das melhores, sem dúvida, pela ousadia e individualidade. Em "Berceuse", o MPB se volta para um sentimento de paz interior. Trata-se de uma faixa que reafirma o cantor no estilo, sem grande profundidade dentro do disco, mas ainda assim sofisticada.
Na última música de "Interdimensional", "O Prazer de Viver Para Mim é Você (versão Cinema)", onde todo o significado emocional do álbum se concentra. A faixa dá continuidade à sétima faixa, que eu chamaria de uma verdadeira divindade sonora. Durante cinco minutos, somos conduzidos por um dos pianos mais sentimentais do disco. A faixa instrumental explora o lado mais sensível do trabalho; o Bossa-R&B se encaixa com naturalidade, como o amor caindo feito luva. A intensidade cresce aos poucos, aprofundando-se de forma belíssima. Não é apenas a trajetória do cantor que está em jogo, mas tudo o que envolve sentimentos reais. É linda, emocionante e impactante. "Interdimensional" propõe uma missão que o cantor Arantes cumpre com força: celebrar o amor ao longo de cinquenta anos de carreira em uma obra sensível e marcante — interdimensional, de fato.
“"Interdimensional"” é um MPB romântico no melhor estilo brasileiro; um álbum poderoso e humano. Guilherme Arantes cria uma espécie de divindade em forma de balada clássica, que conversa diretamente com sua trajetória. O disco é tão atual quanto muitos outros, mas sem abandonar o que o define: o piano e a voz excepcional do artista, transformando a obra em um marco reflexivo sobre o amor ao longo do tempo. O álbum não trata do espaço cósmico em si, mas de como o amor pode soar como algo de outro mundo. Ainda assim, o que há de mais humano aqui é justamente o piano profundo e as metáforas essenciais que sustentam o trabalho. O artista busca, nesse disco, ultrapassar fronteiras do tempo — não apenas nas relações, mas na própria ideia de existência — e em muitos momentos consegue expandir sua linguagem já consolidada.
Ainda assim, a falta de coesão em algumas faixas chama atenção. A proposta não é exatamente cósmica, mas em certos momentos há um excesso de sintetizadores ou escolhas mais experimentais que se afastam do eixo principal do disco, que é o sentimento dentro do MPB. Nem todas essas experimentações se integram de forma natural ao conceito, enquanto outras funcionariam melhor em uma abordagem mais simples e direta. Ainda que isso represente uma parcela menor do álbum, é o suficiente para gerar contraste dentro da obra.
Mesmo assim, “"Interdimensional"” é uma trajetória marcante dentro da MPB de um artista que carrega décadas de experiência. Guilherme sabe exatamente o que está fazendo e, em um disco lindíssimo e emocional, reafirma sua identidade e entrega um dos trabalhos mais interessantes de sua fase recente — e, sem dúvida, um dos melhores álbuns deste ano.