Cinema Bélico? – Cidade Dormitório
"Em "Cinema Bélico?", o grupo tem sentimentos igual em filmes de TV, em sons indie.""O novo álbum dos Cidade Dormitório, denominado como "Cinema Bélico?", mergulha direto em um indie rock psicodélico misturado com jazz e MPB. Durante o disco, a banda soa como quem inicia uma viagem de liberdade, mantendo uma calmaria de sentimentos profundos, mas sem perder a direção. Em alguns momentos, o trabalho lembra o clima lisérgico dos anos 70 e experimentos de spoken word, criando uma atmosfera cinemática e urbana. Durante as faixas, o disco até repete algumas ideias sonoras e instrumentais graves, usando isso como identidade. Mesmo assim, em certos pontos, essa repetição deixa o clima linear demais, como se o grupo preferisse relaxar em uma "vertigem neon" por tempo longo demais.
Dá pra sentir que a banda se inspira em cenários de deslocamento e desilusões amorosas, mas com personalidade. Tudo aqui soa instigante, como assistir a um filme onde as cenas trazem desconforto e pequenas alucinações. Até quando o som fica mais frio, ainda existe uma sensação estranha de conforto que nossos ouvidos traduzem como um pedido de solidão. Isso funciona pelas letras e participações como a da Carabobina, construindo emoções belíssimas de um jeito sincero e sem exageros. Outro detalhe é a mudança de tempo narrativa quase imperceptível, que ajuda a explicar essa sensação de que o som continua ecoando de forma inspiradora. A seguir, apresento minha análise detalhada faixa a faixa e a visão geral do álbum.
Iniciando o disco, já dá pra sentir as camadas sonoras do psicodélico, com uma produção que Fernando Rischbieter faz de forma perspicaz. É aquela sensação de conforto que nossos ouvidos traduzem como um pedido de solidão. "Barco Amnésia" entra com um indie rock psicodélico viciante, levando na calmaria dos sentimentos profundos. Nessa canção, a banda abre o disco como quem inicia uma viagem de liberdade. Em "Como Assim?", com a participação da Carabobina, ou em "Alguém Três", que transforma o disco numa interpretação da vida, o grupo nos guia pelo indie rock e jazz, como se estivéssemos assistindo a um programa de TV onde cada cena é contada pela música e pela interpretação deles. São quatro minutos que trazem desconforto e pequenas alucinações, tudo embalado em um psicodélico MPB que só essa banda consegue criar.
Depois, "Morcega" mergulha nos sons interpretativos dos clássicos da MPB, enquanto "Avenida Canal 5", que a banda define como “cenários de deslocamento”, reforça uma mudança de tempo narrativa quase imperceptível. O álbum mostra histórias, sentimentos e situações complexas que eles chamam de “desilusões amorosas”. Nessas cinco faixas, a estrutura musical constrói emoções belíssimas e durações consistentes. Em "Cinema Bélico?", isso se transforma em memórias e harmonia funcionais, tudo com sentimentos genuínos, quase como assistir a um filme. Faixas como "Bob Dealer" e "Trailers do Futuro" se encontram num experimental que mistura BackTrack e Spoken Word, como uma longa e fria noite. Aqui, o disco adquire uma nova substância: o indie psicodélico com instrumentais graves conduz a experiência, sem se perder. "Já Era, Mano" segue o fluxo de filmes das três da tarde, simples mas com personalidade, e ganha uma ironia sutil quando pensamos nas críticas das redes sociais e na liberdade de expressão.
A banda sabe relaxar sem perder seu estilo: "Vertigem Neon" traz o psicodélico pontual, linear, sem grandes performances, mas ainda assim cativante. O grupo define o disco como “Vibrações [...] cinemático”, um caminho direto, sem exageros. Por fim, "O Terço e a Bengala" e "Do Compositor" encerram o disco com aquele sentimento de conclusão inspiradora, como se o som ainda ecoasse, finalizando a jornada sem conclusões, mas cheia de virtude. O disco mantém uma complexidade nas interpretações, mas termina como um retrato sincero: a banda fez o melhor com o que o mundo atual disponibiliza.
No fim das contas, esse disco não está nem aí para o topo das paradas ou aprovação massiva. O grande trunfo aqui é a falta de pose. A banda pega a MPB e o indie psicodélico e resolve tudo na base da sensibilidade, entregando um trabalho que foca muito mais na conexão real do que em técnicas milimetricamente calculadas. É um som feito por quem gosta de criar junto, transformando crises existenciais e desilusões em um cinema para os ouvidos.
Claro que o álbum dá suas escorregadas. Enquanto o início com "Barco Amnésia" e a parceria com a Carabobina entregam uma viagem impecável, a mão pesa um pouco nos experimentos de spoken word do bloco final, deixando o ritmo arrastado e um tanto quanto redundante. Mas o saldo ainda é muito positivo. A produção de Fernando Rischbieter segura a onda e garante a identidade do projeto do começo ao fim. Falta um refinamento nos excessos, com certeza, mas a experiência encerra com aquela sensação boa de um filme cult que a gente termina de assistir e fica encarando a tela pelos próximos dez minutos.