Rock Doido – Gaby Amarantos
"Em Rock Doido, Gaby Amarantos cria uma identidade visual e sonora em um álbum culturalmente coeso, que impacta o Brasil e o mundo."Trabalhar com identidade visual é quase um tesouro na cultura musical. Artistas que necessitam usar cenários, cinematografia, carisma e dedicação em um disco próprio costumam a ter um apoio maior da cultura pop como um todo. Em 2025, Gaby Amarantos, artista de Belém do Pará, decidiu fazer algo semelhante: seu disco "Rock Doido", lançado em agosto daquele ano, tinha uma proposta estética e sonora predominante de seu estado, o tecnobrega, com muita agitação e aparelhagem. Tudo isso com um curta-metragem de 22 minutos, onde a cantora usa a técnica do non-stop (sem cortes) para mostrar essa experiência audiovisual sonora. Com isso, encantou o país e o mundo através dessa obra contemporânea sem igual. Seu álbum esteve presente em várias discussões na cultura, como na COP30 na Amazônia, onde o seu contexto cultural foi usado não apenas para a preservação da cultura local, como também da cultura sonora brasileira, mostrando a região Norte como uma das maiores potências musicais do Brasil, onde antes artistas como Joelma e Zaynara dominavam a região e o planeta.
"Rock Doido" tem um estilo de continuidade sonora contínua. Desde sua primeira faixa ou do primeiro play no curta-metragem, Gaby Amarantos introduz a era de forma agitada e eletrizante. "Essa Noite Eu Vou Pro Rock" tem o estilo que Gaby usa para mostrar seu disco: canções curtas, como se estivéssemos em movimento constante, e logo já somos introduzidos a "Arrume-se Comigo" de forma energética. Essa forma poderosa tira o fôlego de um jeito animado; Gaby quis que nos sentíssemos em uma festa de aparelhagem no Pará, tudo em segundos, sem parar. O disco tem 22 faixas de poucos minutos, e durante esse tempo passamos por tecnobrega, eletromelody, pop, piseiro e sertanejo. Tudo é explosivo, sem tempo para pensar. Cada faixa é uma festa em plena madrugada, e a artista conduz perspicazmente o som, fazendo-nos sentir em Belém, aproveitando.
Talvez, com o passar do disco, percebemos o trabalho da cantora em sua fase mais emblemática. Gaby falou em uma entrevista: "O Rock Doido é muito maior do que a gente pode imaginar e não tem nada a ver com rock." O que percebo nessa fala é que há dois sentidos. Aqui, ela pode se referir ao sucesso que o disco fez — parou a internet com elogios do público e da crítica, que o chamaram de "perfeito". Mas também, naquele ano, o pop predominava; álbuns que usavam o pop melódico como sonoridade eram comuns, e Gaby trouxe o brega, estilo mais comum no Norte e Nordeste, que se alastrou pelo Brasil. Ela percebe que seu disco envolve todas as regiões do país e do mundo. A cantora traz uma obra coesa em um ano onde o pop estilo Taylor Swift era o popular, em um país onde o próprio gênero era ofuscado por artistas internacionais. Gaby faz o oposto: traz o gênero originário brasileiro, o clássico brega, e entrega coesão e autoidentidade. Passando por participações como Viviane Batidão e Lauana Prado nas faixas de sertanejo "Te Amo, Fudido" e "Não Vou Chorar", o escopo do álbum se eleva, servindo como uma pausa depois do som clássico do tecnobrega. O disco segue por interlúdios e volta para o caos generalizado do techno. Uma confusão totalmente divertida, onde os sons se complementam com gírias do estado em "Dá-Lhe Sal" e "Tumbalatum", com a Gang do Eletro, tudo isso misturado à música pop periférica brasileira. As participações entregam carisma, junto com Gaby criando a atmosfera exata de um show em plenas 22h. Gaby explica que "Rock é euforia." De forma simples, ela cria o simples inteligente e sonoramente sedutor, como na faixa "Viciada em Seduzir". A cantora cria tudo isso sem pausas, sem descanso, apenas usando o gênero do seu estado como base, surpreendendo a todos.
As faixas mais famosas do disco, que ao meu ver foram as que fizeram o projeto ter toda essa visibilidade, são "Eu Tô Solteira" e um dos hits do ano, "Foguinho", que reutiliza a clássica canção "Somebody That I Used to Know", cuja base original é de Luiz Bonfá. "Foguinho" transforma o pop techno euforicamente, com letras humoradas que fizeram a internet parar para apreciar. Gaby foi inteligente, transformou o disco em um gênero complementar. "Foguinho" poderia passar despercebida, porém o carisma e a composição estranha a fazem um clássico desta década. Tudo isso com faixas que juntam o Norte e o Nordeste, como "Cisne Negra" e "BBBBBBB", além de músicas que deixam, até aqui, o álbum animado e sem parar, como "Cerveja Voadora" (com MC Dourado), "Parararurau" e "Bonito Feio", que ampliam o escopo de "Rock Doido" de maneira icônica. Gaby explica: "O povo do Norte cria as próprias tendências: a gente é colorido, over, camp." E a verdade é que uma cultura bem trabalhada transforma obras como "Rock Doido" em um impacto completo.
Gaby termina o disco com faixas clássicas de finalização, trazendo a emoção de um trabalho que ficará na história brasileira. "Carregador de Aparelhagem" e "Rock Doido é Meu Lugar" trazem a nostalgia da década de 2010 com o eletromelody e o piseiro clássico. É fascinante como a produção impressiona. "Deixa" finaliza o álbum com um traço de saudade; Gaby, com sua voz majestosa, cria um som que remete a um fim próximo, porém com muitos momentos bons. "Rock Doido me colocou de novo no trono da música brasileira. Houve boatos de que minha carreira foi um golpe de sorte." Essa frase repercute o fascínio e a admiração de Gaby não pelo sucesso em si, mas pelo que o Brasil fez: trouxe a cantora de volta para as paradas, e com razão, pois não podemos deixá-la para trás.
O Brasil e o mundo sentiram o impacto de "Rock Doido". Não é apenas doido, mas também emocionalmente inspirador para trabalhos futuros do cenário pop. Com 22 faixas, um curta-metragem non-stop e um estilo predominante do Pará, ela conseguiu parar o mundo. Com humor, caos e um tom emotivamente marcante, "Rock Doido" é o show, Gaby Amarantos é a DJ, e estamos vendo nascer um clássico.