Carranca – Urias
""Carranca", embarcamos numa busca profunda, marcada pela força e superação. Cada música surge como voz ativa, transformando e dando novo sentido à história, unindo o ontem e o hoje numa única essência."Logo no começo de sua jornada musical, Urias já mostrava ser uma artista que não se prendia a um único estilo. Em Fúria em 2022, seu primeiro álbum, ela trouxe um R&B influenciado pelo trap e pop, criando algo que soava familiar, mas com muita personalidade. O álbum atraiu olhares não só pela sua beleza visual, mas também porque a cantora participou ativamente da sua criação, mostrando uma personalidade forte, cheia de símbolos e, às vezes, até desafiadora. Segundo a própria artista, tudo ali fala sobre essa "fúria" — uma força que une expressão pessoal, posicionamento e história.
Um ano depois, em 2023, ela expandiu ainda mais sua criatividade com HER MIND, um trabalho ambicioso que se jogou no electropop, hyperpop e house, explorando diferentes línguas e formas de som. O álbum funciona quase como um pedaço da sua mente: experimental, sempre mudando e surpreendente. Aqui, Urias não só acompanha o que está bombando no pop, mas transforma tudo ao seu jeito, criando algo com uma identidade visual e conceitual muito forte, firmando seu lugar como uma das artistas mais criativas do Brasil nos últimos tempos.
Em 2025, a cantora volta com Carranca, seu terceiro álbum, lançado em 7 de outubro. Desta vez, Urias parece que voltou a algumas coisas que marcaram o início da sua carreira, pegando o R&B como base de novo, agora junto com influências de trap e um MPB mais elegante. Ao mesmo tempo, o projeto se aprofunda em temas como a história dos seus antepassados, liberdade e quem ela é, conversando diretamente com coisas da cultura afro-brasileira e mostrando que ela está mais madura como artista.
Com essa história de sempre se reinventar e ser ousada, fica a dúvida: será que Carranca consegue juntar bem essa mistura de estilos com a profundidade do que ela quer dizer, entregando algo que faz sentido e impressiona — ou acaba se perdendo por querer fazer demais?
Sem enrolação, vamos ver o que achei.
A abertura do álbum, Liberdade (Intro), já nos situa no âmago da obra através da voz de Corintho, que destaca os pilares: liberdade, força e as raízes ancestrais. Mais do que uma simples introdução musical, a faixa se torna um guia espiritual e simbólico, conduzindo o ouvinte por uma jornada que transcende o individual e alcança o coletivo. Observa-se uma progressão da negação à afirmação, como se a narrativa se movesse da dor do passado para um reencontro com a identidade e o poder. A introdução possui um caráter ritualístico que confere ao álbum uma atmosfera quase sagrada.
Na sequência, em Deus (com Criolo), a proposta se afasta de uma religiosidade convencional para tecer uma crítica contundente às estruturas que ditam quem tem acesso ao divino. Criolo e Urias questionam por que o sagrado se associa historicamente a corpos não marginalizados e como a espiritualidade foi afetada por processos de exclusão e pelo colonialismo religioso. A faixa se desenvolve sobre uma base de hip hop e soul carregada de emoção e significado político. Aqui, a espiritualidade não é vista como fé cega, mas como ausência e campo de disputa. Não se trata de "acreditar ou não em Deus", mas de refletir sobre quem foi privado do direito de crer. O resultado é uma faixa que encapsula a essência do álbum: político, espiritual e historicamente consciente.
Em Quando a Fonte Secar, a narrativa se volta para o interior. Se a faixa anterior questionava a ausência do sagrado, agora o foco recai sobre o esgotamento total: da fé, do amor, da identidade e da energia vital. A "fonte" não é literal, mas simbólica, representando tudo o que sustenta a existência. A música traduz esse colapso de maneira sutil, com uma abordagem de balada alternativa que mescla jazz e elementos da MPB. Há uma constante sensação de desgaste psicológico e alienação do próprio corpo. Simultaneamente, a repetição instrumental cria um efeito hipnótico que impede a ruína completa.
Vénus Noir representa um ponto de inflexão no álbum: o corpo deixa de ser meramente alvo de violência histórica e se torna também território de afirmação, desejo e poder. A faixa estabelece um diálogo direto com a figura de Saartjie Baartman, mulher sul-africana explorada no século XIX como "curiosidade exótica". Com uma base de trip hop, a música equilibra denúncia e sensualidade, transformando a narrativa histórica em um ato de reapropriação simbólica. Aqui, Urias não apenas revisita essa violência, mas devolve poder ao corpo representado.
Em Vontade de Voar, Urias redireciona o foco emocional do disco. Após a quebra em Quando a Fonte Secar, a canção irrompe como um desejo de evasão, amplitude e renovação pessoal. Não é um "voo" banal ou fantasioso, mas uma busca por se livrar da aflição — uma escapatória mais ligada à pressão mental do que à total liberdade. Aqui, o corpo em Carranca deixa de ser apenas um local ferido ou alvo de disputa e se torna um corpo em mudança. A canção, alicerçada em nuances de MPB e soul, mantém a unidade do álbum ao juntar melodia suave e carga conceitual.
Oração (Interlúdio), guiada pela voz de Corintho, revisita o tema do sagrado sob uma ótica instável. Aqui, "oração" não quer dizer alívio ou resposta divina certa, mas busca por falar com algo indeciso. Após a desconstrução de Deus, essa oração não nasce de uma fé inabalável, mas de um estado de pausa. É um momento onde dúvidas, anseios e silêncios se misturam sem solução. Não há final — só progressão emocional. O silêncio, neste caso, não quer dizer paz, mas apreensão.
Etiópia indica uma reviravolta simbólica relevante em Carranca. Aqui, a faixa sai do colapso individual para uma busca de origem, recomeço e pertencimento. A Etiópia surge não só como país, mas como símbolo de ancestralidade, honra e continuidade na história. Se antes o álbum indagava perda, rompimento e exaustão, agora começa a traçar caminhos de reconstrução. A canção, feita com elementos de afrobeat e música afro-brasileira, reforça essa ação de se religar com a ancestralidade sem deixar de lado o lado atual do álbum.
Águas de um Mar Azul leva o álbum para um campo mais sensorial e espiritual, sem abandonar sua força política. A água aqui serve como símbolo diverso: limpeza, jornada e mudança. Ao mesmo tempo, dentro da lógica de Carranca, ela também pode ser vista como metáfora da diáspora — desenraizamento forçado, perda de chão e reinvenção de identidade em outro lugar. Com uma base de synthpop alternativo, a faixa cria um contraste entre leveza sonora e profundidade conceitual.
“Navegar” desloca a metáfora da água para um estágio mais ativo dentro de Carranca. Se antes havia fluidez, memória e dissolução, aqui surge uma ideia de movimento com direção — ainda que sem mapa definido. O caos não desaparece, mas passa a ser atravessado. Para Urias, navegar não é um gesto de controle pleno nem uma metáfora romântica de liberdade. É mais próximo de persistir em movimento, aprender a ler a instabilidade e transformar incerteza em percurso. Musicalmente, a escolha de um samba com elementos de pagode reforça esse deslocamento. A estética popular brasileira aqui não é decorativa, mas estrutural.
Em “Se Eu Fosse Você”, o eixo do álbum se desloca para a identidade relacional. Aqui, “eu” e “você” deixam de ser posições fixas e passam a existir como troca, projeção e instabilidade de perspectiva. A faixa dialoga diretamente com momentos anteriores do álbum. Em “Vênus Noir”, o corpo era objetificado; em “Deus”, o sagrado era disputado; em “Navegar”, havia movimento. Agora, todas essas camadas convergem para uma questão mais íntima: o que resta do eu quando ele é reinterpretado pelo olhar do outro? Musicalmente, o R&B alternativo com elementos de MPB reforça uma abordagem mais introspectiva.
“Herança” desloca a pergunta de identidade para um nível anterior: “o que foi deixado em mim antes mesmo da minha existência?”. No contexto de Carranca, herança não é um conceito neutro. Ela inclui memória ancestral, violência histórica, apagamentos culturais e reconstruções simbólicas. A presença de Giovani Cidreira amplia essa dimensão ao reforçar uma leitura de memória coletiva. A faixa sugere que não existe identidade sem passado, e que liberdade não se constrói fora da história.
“Paciência” reorganiza novamente o eixo do álbum para a questão do tempo. Nesse contexto, paciência não significa passividade, mas resistência temporal — suportar processos que não são imediatos. A participação de Don L reforça a dimensão política da faixa, especialmente ao relacionar tempo e desigualdade. A fusão de hip hop, MPB e trap cria uma base sonora dinâmica, que sustenta a ideia de movimento contínuo. A faixa se constrói como um ponto de síntese do álbum.
“Eterna (Outro)” tenta encerrar Carranca deslocando sua narrativa para um plano mais abstrato. Aqui, já não se trata de passado, presente ou futuro, mas de continuidade — uma permanência que não se organiza em linha, mas em eco. Em vez de concluir o álbum de forma rígida, a faixa prolonga sua existência em uma espécie de desdobramento contínuo. A narração de Urias contribui para essa sensação de suspensão, reforçando a ideia de que o álbum não se encerra completamente — ele se transforma.
Após a dissolução proposta em “Eterna (Outro)”, “Voz do Brasil” recoloca o álbum em um plano mais direto, urbano e político. Aqui, a linguagem simbólica dá espaço para uma abordagem mais concreta, onde a ideia de “voz” passa a ser disputa por existência e narrativa. A participação de Major RD reforça esse deslocamento. Sua presença traz a dimensão da rua, da periferia e da urgência discursiva. “Voz do Brasil” trata da disputa por quem pode narrar o país. Musicalmente, a faixa mistura hip hop, trap e elementos experimentais, funcionando como um encerramento mais acessível e energético dentro de Carranca.
Carranca é um trabalho extraordinário dentro da discografia de Urias. Mais do que um álbum, ele se estrutura como uma espécie de narrativa expandida que incorpora referências da cultura afro-brasileira, histórias de resistência, política e ancestralidade, construindo um universo que ultrapassa o campo musical. Ao longo do projeto, Urias não apenas narra uma trajetória pessoal, mas também propõe ao ouvinte um deslocamento de percepção: entender o mundo a partir de outras camadas históricas, culturais e espirituais. O álbum não busca impor uma visão única, mas provocar consciência sobre aquilo que foi apagado, retirado ou silenciado dentro de estruturas sociais e históricas.
Em termos musicais, Carranca é ambicioso ao transitar entre gêneros e estéticas diversas. Em alguns momentos, a força do conceito se sobrepõe à exploração sonora mais imediata, mas isso não enfraquece o projeto — pelo contrário, reforça sua proposta centrada na linguagem e na narrativa. A diversidade de estilos funciona como ferramenta expressiva, e a voz de Urias se adapta a essas mudanças com naturalidade e consistência. Ainda assim, é um álbum que exige atenção ativa. Para quem busca apenas consumo superficial, parte de sua proposta pode parecer dispersa ou menos imediata. No entanto, dentro de uma escuta mais profunda, Carranca se revela como uma obra de construção complexa, onde forma e conceito caminham juntos.
No conjunto, o álbum se destaca como uma das propostas mais ambiciosas da música brasileira recente. Mesmo com pequenas irregularidades de coesão em alguns momentos, ele se mantém como uma experiência artística potente, que combina crítica social, identidade e experimentação estética.