Funk Generation – Anitta
"Em "Funk Generation", Anitta transforma o caos em coerência, tecendo uma jornada visceral onde o proibidão e o melody resgatam a alma do funk carioca e provam a consistência de sua arte."Em 26 de abril de 2024, a cantora Anitta trouxe seu sexto álbum de estúdio, "Funk Generation". Nas palavras da própria artista, o projeto “faz parte de quem eu sou”, refletindo sua forma de vida dentro do gênero que a colocou onde ela está hoje. O caminho até o disco, no entanto, foi marcado por problemas e mais problemas: uma primeira impressão negativa, singles que pareciam sem nexo, parcerias confusas e uma demonstração inicial do álbum que soava genérica e superficial, como se ela estivesse tentando criar um estereótipo do Brasil. “Só tem funk e futebol aqui”, foi o que disseram na época.
Com uma sexta obra que muitos já davam como acabada antes mesmo do lançamento, Anitta conseguiu uma proeza: transformar todo esse caos em uma obra excelente. A seguir, apresento minha análise detalhada faixa a faixa e a visão geral do álbum "Funk Generation".
Iniciamos a obra "Funk Generation" com "Lose Ya Breath", um funk ofegante que se transforma em sonoridades clássicas do funk carioca dos anos 2000; talvez Anitta, com esse álbum, traga a cultura de forma atualizada. O disco não precisa ser necessariamente um show de revelações e atualidade; às vezes, o básico bem feito e com personalidade transforma uma obra em algo robusto o suficiente para durar gerações. Talvez o álbum queira contar isso, pois "Grip" e "Funk Rave", canções posteriores, mostram de forma concreta que a cantora se atualiza sem parecer grandiosa, apenas o suficiente para transformar a inovação em parte da obra. A cantora afirma: “Para os artistas, é muito bom estar nas paradas, mas também é ótimo propor novos ritmos”, justificando o porquê de a genialidade de "Funk Generation" e até o lead single, lançado um ano antes, causarem tanto caos na internet. O disco busca ter personalidade sem parecer mais do mesmo; a geração aqui é a do funk carioca, onde Anitta acerta.
"Fria" e "Meme", mesmo sendo canções secundárias do gênero Funk Melody, ampliam o sentimento de Anitta de criar uma obra de certa forma coesa. O disco tem transições suficientes para criar a coesão narrativa que a cantora busca nos significados de saudade, curtição e euforia. Possivelmente, "Funk Generation" consegue fazer Anitta refletir sobre sua carreira, vinda de discos em que ela buscava tentar ser impactante; nesta obra, a busca é pela consistência. "Love In Common" e "Aceita" usam o gênero Miami Bass, entregando algo sexy sem tanta vulgaridade, onde o sentido da coesão ainda tem força. Durante o disco, a cantora se esgueira pelo inglês, espanhol e português, conseguindo unir os idiomas de tal maneira que nos sentimos em momentos de leveza e caos. "Double Team", com Bad Gyal e Brray, traz a primeira colaboração do disco, sem perder a personalidade. Em uma entrevista para a revista Euphoria, a cantora afirma: “Eu queria esse som porque é o meu país, a minha cultura.” É interessante como a verdade foi dita: essa canção e as outras têm uma sensação sonora brilhante; você lembra da cultura do funk brasileiro, mesmo quando a sonoridade se curva ao Latino-Freestyle. O disco é inteligente, e a composição de Anitta consegue segurar as sonoridades com coesão e comprometimento; a cantora dita o tom, e funciona.
"Savage Funk" traz o Electro-Funk sem perder o estilo da obra, com um proibidão e sua sensualidade que cruza idiomas. "Joga Pra Lua", com Pedro Sampaio, vem com o clássico funk carioca que funciona como single promocional sem comprometer o disco. A artista traz os sons como um baile funk em plena luz do dia; o disco parece um palco que não tem fim, onde Anitta se diverte e nós também. "Cria de Favela" e "Puta Cara" trazem o escopo do álbum — duração, linguagens e som — sem parecerem perdidas e transbordando personalidade. A cantora disse para o The Today Show: “Eu gerenciei minha própria carreira por muitos anos.” Por isso sua fabulosa forma de compor o álbum; ela consegue e sabe o que faz de melhor: um bom funk que por muitos anos foi subestimada a fazer. Anitta só faz Melody? Sim, porém o funk ela domina. Seja em "Sabana", com o Favela Funk, ou em "Ahi", com Sam Smith — que, mesmo com os problemas de participação, consegue fazer uma presença sensual sem tantas quedas de qualidade —, "Funk Generation" foi apenas o início do que Anitta pode fazer de melhor. Ela consegue isso com proeza, como se comandasse uma carreta de baile funk: o paradão está formado, e ela sabe agitar mesmo com a suavidade do funk.
O disco termina na clássica "Mil Veces", um funk melody que funciona por ser o maior hit do disco. Durante "Mil Veces", a cantora mostra que pode fazer mil "Funk Generation", e isso é impactante. Ela se denomina: “Sou uma mulher de negócios”, e realmente é, assim como também é revolucionária.
"Funk Generation" só perde para uma coisa: a forma como Anitta criou a obra. No começo, parecia uma era perdida; depois, ela recorreu ao Funk Carioca, Latino e Melody. Parecia um caos, com participações que pareciam não funcionar e o EP "Funk Generation: A Favela Love Story", que não era tão genial.
Porém, a cantora conseguiu, no final de tudo, juntar tudo isso em um disco com personalidade e coerência. As canções funcionam desde a sua abertura; os gêneros se mesclam de forma excelente — Electro, Melody, Latino, Carioca —, tudo surpreendente. Existem faixas que funcionam mesmo que apenas como plano de fundo, mas tudo é excelente. Ela comenta: “Esse álbum não segue a fórmula do que é sucesso hoje ou do que é mainstream, ele segue a minha cabeça mesmo”, e consegue.
Muitos podem ver o álbum como um “qualquer coisa” ou supersexualizado, porém não: ela fez melhor. A cantora uniu tudo o que já havia sido jogado e criou uma bela arte. É, realmente, uma geração inteira da nossa cultura em um álbum coeso de uma cantora que, quando quer fazer algo surpreendente, consegue. "Funk Generation" não quer sexualizar o Brasil, ele só mostra o que acontece aqui, quem Anitta foi e quem será. Passam-se gerações, e ela ainda continua surpreendendo. É aqui que ela se consagra.