Análise e Review do álbum Vila de Fabiano do Nascimento e Vittor Santos Orchestra

ARTISTAS: Fabiano do Nascimento , Vittor Santos Orchestra e

ÁLBUM: Vila

LANÇAMENTO: 27 de fevereiro de 2026

GÊNERO: Jazz contemporâneo

DURAÇÃO: 42MIN (11 faixas)

9

Vila – Fabiano do Nascimento e Vittor Santos Orchestra

"'Vila' faz do jazz um lugar de pertencimento: um disco que percorre infância, natureza e memória com a delicadeza de uma orquestra que parece tocar diretamente das lembranças."
Por Gabriel Silva -

Após seu disco The Room (2024), ao lado de Sam Gendel, e Cavejaz (2025), que ampliou sua visibilidade internacional, Fabiano transforma sentimentos profundos em memórias coletivas em seu novo trabalho Vila (2026), com a participação de Vittor Santos Orquestra. O disco é focado no jazz contemporâneo clássico dos anos 70. Ele é úmido, quase como um dia chuvoso, e sua estética se passa em uma vila do Rio de Janeiro. Com memórias e conforto, o álbum transforma tudo isso em uma coesão impressionantemente bela.

Ao som da música clássica brasileira, Vila leva o ouvinte da leveza dos instrumentais a sentimentos nostálgicos. Fabiano consegue trazer harmonia de forma fantástica e melódica. As faixas seguem estilos que discos como Promises (de Floating Points, 2021) conseguem: transmitir sentimentos por meio das cordas, violinos e flautas, como em um dia de sol quente e úmido. Vittor Santos Orquestra trabalha de maneira singular, unindo sons dos instrumentos com elementos que remetem à natureza da vila. Spring Theme evoca sentimentos de infância, lembrando, em certo sentido, Selected Ambient Works 85–92 (de Aphex Twin, 1994), mas em uma cidade do interior em vez de uma urbana. Toda a harmonia do disco se constrói nesse ambiente de florestas, rios e tardes ao som dos pássaros. Fabiano do Nascimento já era considerado um dos músicos brasileiros mais respeitados na cena internacional de jazz contemporâneo, e em Vila ele reafirma essa posição, ambientando o disco no Bairro Saavedra, no Rio de Janeiro, uma região apertada, porém calmante.

A faixa Tema Em Harmônicos eleva o jazz à MPB, enquanto Uirapurú constrói melodias afloradas, como se o disco relembrasse os dias de encontro da família em um fim de semana. A repetição constante transforma o jazz em pertencimento. Fabiano brinca com os sons em ciclos, e os violinos e timbres amadeirados aumentam a sensação de um dia qualquer no bairro do Rio. Trenzinho Imaginário brinca com cordas de forma eufórica, como se a ansiedade subisse e, quando a explosão se aproxima, a próxima canção, Valsa, trouxesse Vittor Orquestra em uma melodia de noite estrelada. Esses recursos, por mais densos que pareçam, trazem leveza ao projeto, transformando a música da natureza em um jazz suficientemente estruturado para unir inovação e agradabilidade. Os artistas criam um experimento notável na faixa Floresta dos Sonhos, de seis minutos, onde a ambição das notas, mesmo quando leves, cria um ciclo de música fantasiosa que sufoca e liberta ao mesmo tempo. Tudo parece perdido, mas se encaixa em uma orquestra fantástica, uma trilha sonora que toca a alma, levemente inspiradora e fortemente sofisticada. Vila equilibra sensibilidade emocional ao utilizar jazz clássico com artefatos de inspiração e purificação.

Sobre a natureza real e o contorno sentimental, Vila cria emoções mesmo quando a suavidade da bossa nova se quebra. Fabiano e Vittor Santos Orquestra constroem memórias de maneira quase fabulosa. Com essa agilidade e coesão notáveis, faixas como Vittor e Fabi e Tema Em Harmônicos (No String) criam uma sensação de intimidade com o ambiente do disco. Quando misturamos jazz e música clássica, naturalmente se forma uma orquestra clássica, e a obra define sua característica: Vila fala de infância e imaginação. Porém, algumas faixas que quebram a harmonia trazem uma sensação de desconexão, lembrando The Orb's Adventures Beyond the Ultraworld (de The Orb, 1991), onde certas transições parecem abruptas e menos íntimas que outras canções. O Tempo (Foi o Meu Mestre) brilha ao demonstrar isso: a faixa inicial começa com cordas, mas a virada acontece na performance de Fabiano do Nascimento, cuja voz calma cria pertencimento, laços e afeto, como uma roda de música na escola.

Essa abordagem mostra, de forma sincera, a essência do disco. Em tempos difíceis, Vila traz sentimentos que 2026 precisa. É um álbum preciso e complexo no jazz clássico contemporâneo, com um sentimento de saudade que se revela facilmente durante o disco. Fabiano do Nascimento e Vittor Santos Orquestra conseguem capturar o melhor do ambiente natural, como um riacho que leva memórias entre os tempos da vila. Excelente.

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