Bossa Sempre Nova – Luísa Sonza , Roberto Menescal e Toquinho
"Em Bossa Sempre Nova, Luísa Sonza entrega vocais envolventes e grooves clássicos dos anos 60, mesmo quando o álbum flerta com o caos de suas próprias experimentações."Em janeiro de 2026, a cantora e compositora Luísa Sonza, que recentemente divulgou seu trabalho Brutal Paraíso (2026), trouxe no início do ano uma proposta que, em 2023, transformou-a na compositora favorita do ano: resgatar a Bossa Nova, gênero que ganhou fama na canção Chico (do álbum Escândalo Íntimo, de 2023).
Chico, de forma genial, usava um pop disfarçado de Bossa Nova que explodiu no Brasil como a declaração romântica favorita dos brasileiros. Indicada ao Grammy Latino de Melhor Canção em Língua Portuguesa, a música entrou para a história da música brasileira pela vulnerabilidade de Sonza ao falar sobre o seu antigo e polêmico relacionamento. Com todo esse sucesso, a artista decidiu transformar esse gênero em um disco para a sua própria discografia. Denominado Bossa Sempre Nova, o álbum traz parcerias com dois outros grandes artistas, Toquinho (Aquarela, 1983) e Roberto Menescal (O Barquinho, 1960), no qual a cantora faz regravações de clássicos e apresenta algumas faixas de própria autoria, como a própria Chico.
Em certas regravações clássicas da Bossa Nova, as vozes que entram na alma transformam Bossa Sempre Nova em um tipo de clássico da MPB dos anos 60. Luísa tem uma versatilidade astronomicamente bela; a artista transforma sua voz em um gênero à parte, e, sem ela, o disco seria apenas um violão faltando cordas importantes. A faixa de introdução, Consolação (de Baden Powell e do poeta Vinícius de Moraes) une-se perfeitamente à produção de Toquinho e à interpretação de Sonza, criando quase uma melodia de carioca da década passada. As faixas seguintes transmitem perfeitamente como as canções de Toquinho e Roberto Menescal se tornam atuais sem parecerem cansativas. Durante as faixas, os músicos usam diversos instrumentos clássicos da Bossa Nova e da MPB, como trompetes, violão, contrabaixo e saxofone. Na faixa Águas de Março (de Tom Jobim), Toquinho e Luísa sintonizam os sons e os vocais em tons suaves, fazendo o disco se transportar por esses elementos. Em Onde Anda Você (de Vinícius de Moraes e Hermano Silva), a harmonia da cantora com Toquinho evoca a MPB igual a um dia nos bares de Copacabana. Bossa Sempre Nova traz músicas que abençoaram o Brasil, sendo conduzidas por artistas com classe. Nós e o Mar (de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli) traz o saxofone fantástico de Menescal com a bela interpretação de Sonza; a faixa tranquila entra na alma e mostra a lindeza da MPB.
O disco brinca com os instrumentos e vozes. Em entrevista, a cantora disse: "Eu sou uma pessoa que respeita muito a música brasileira em si e quem veio antes de mim...". Em O Barquinho, de Menescal, esse respeito é realmente transmitido. Luísa canta como em uma música de ninar, com a Bossa Nova e com um violão que remete às praias. A música leva-nos a imaginar essas paisagens, como se o disco fosse o oceano conduzindo a gente em ondas tranquilas. Ah! Se Eu Pudesse (de Menescal) e Tarde em Itapoã levam o piano dos artistas como uma melodia que entra na mente; a voz de Sonza é do tipo psicodélico e sinistramente envolvente. A MPB está em boas mãos. O disco finaliza com seu sucesso, Chico, em outra versão, mais densa e melodicamente interessante. A artista traz a dor com sinceridade vocal: mesmo quando não usa a palavra "Chico", a canção ainda tem presença, humor para quem conhece seus motivos e cordas belamente precisas. Assim o álbum finaliza, como deveria, com maturidade, versatilidade e a demonstração de que artistas pop conseguem demonstrar a sutileza dos anos 60 hoje em dia. Os três estavam em harmonia, trouxeram o melhor de si e conseguiram, mesmo quando falham em alguma coisa.
Algumas regravações se tornam paródias de si mesmas, onde a artista tenta introduzir elementos novos que decaem a experiência das regravações, mesmo quando os músicos mostram estabilidade. O grande ponto negativo de Bossa Sempre Nova se dá ao fato de Luísa se perder na narrativa do gênero, mesmo com sua voz poderosa. Em Só Tinha de Ser com Você (de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira), a cantora tenta se segurar na sonoridade como se estivessem harmônicos, como nas faixas que demonstrei, porém a voz parece estar adiantada ou atrasada demais, onde Toquinho não consegue acompanhar. Isso se repete também em Você (original de Roberto Menescal), onde a união da cantora com o músico fica forçadamente instigante; Luísa não consegue se harmonizar como com Baden Powell e o poeta Vinícius de Moraes em Consolação. A faixa cansa quando os elementos ficam à deriva, como se fosse o mar, ou quando a junção fica complexa para os artistas se unirem, como um coral ainda em testes. Luísa explica em entrevista: "Fizemos tudo de forma artesanal no Rio e em São Paulo, ao vivo", o que poderia ser genialmente experimental, porém, em Carta ao Tom 74 (de Toquinho), esse "ao vivo" fosse artesanal, o disco não se encaixa nesse estilo; o álbum é denso, cheio de Bossa Nova, MPB e clássicos. O que era para ser natural se transforma em canções que não tentam replicar as originais e não se tornam autossuficientes para serem únicas; mesmo com vocais e melodias, as faixas se tornam experimentos e só ficam no experimento.
Samba de Verão (de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle) é cansativa; parece que a artista se sente desconfortável durante a canção. Não é a forma de cantar, é algo intrínseco da cantora: a música não inspira na alma e não dá voltas em nós, não conseguimos sentir, apenas pensar: era proposital? Os saxofones são ecléticos, no melhor estilo Ants From Up There, do Black Country, New Road (2022) ou Silva Canta Marisa, de Silva (2016). Experimentando sons em Triste (de Tom Jobim) ou Um Pouco de Mim, da própria Luísa Sonza, o disco nunca avança ou fica parado em vocais da Bossa e violão da MPB. Diz Que Fui Por Aí (de Zé Keti e Hortênsio Rocha) traz o sentimento de que talvez funcione melhor em botecos ou bares. Como disco, Bossa Sempre Nova emerge e afunda durante seus 43 minutos de 15 faixas. Será um clássico que Toquinho e Roberto Menescal terão na discografia, porém Luísa ficará com o gosto de que Chico foi um experimento brilhante, mas Bossa Sempre Nova foi uma tentativa caótica sobre o som brasileiro.